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A
SOLTURA DE AVES CONTRIBUI
PARA A SUA CONSERVAÇÃO?
Prof.
Dr. Luís Fábio
Silveira
Departamento de Zoologia,
Universidade de São Paulo
Curador associado das coleções ornitológicas
Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo
http://www.ib.usp.br/~lfsilveira
Anita Wanjtal
Departamento de
Biologia, Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo.
Freqüentemente vem à
tona a reivindicação de que as aves que se encontram em cativeiro
deveriam ser libertadas. Esta opinião inspira grande simpatia, mas
tenta induzir ao leigo a impressão de que esta “libertação”
contribui para a recuperação da espécie e dos ecossistemas. Esta
prática, na verdade, pode resultar em conseqüências desastrosas para
a própria ave libertada, para a preservação de sua espécie e para o
ecossistema na qual foi realizada a soltura, não atendendo a nenhuma
das alegações que motivam as bem-intencionadas pessoas e
organizações que a fazem.
Para analisar as
conseqüências de tal ato e seus possíveis efeitos sobre as
populações locais, há a necessidade de diferenciarmos o ato de
soltura, que raramente vem acompanhado de critérios ou de
acompanhamento posterior, de um ato de reintrodução, cujo trabalho
exige método e monitoramento.
As solturas ocorrem
em quantidade até hoje no Brasil. Este ato é praticado, na maioria
das vezes, pelo poder público, através das Polícias Florestais e
mesmo do IBAMA, mas criadores também a realizam. A soltura é
simplesmente o ato de libertar indivíduos em áreas “escolhidas”
(através dos.mais variados critérios) para que os mesmos tenham
alguma chance de sobrevivência fora das condições de cativeiro.
Apesar do grande
apelo popular e da significativa atenção dada pelos meios de
comunicação, as solturas de aves (recém ou não) apreendidas nunca
têm seus resultados adequadamente conhecidos. Um dos maiores riscos
associados a esta prática é a disseminação de zoonoses, com a
possível extinção local das espécies contaminadas.
A reintrodução, em
um sentido amplo, é o ato deliberado de soltar animais na natureza
com finalidades específicas e controladas. O principal objetivo é o
de auxiliar na conservação; deste modo, a reintrodução não deve ser
realizada apenas para dar um destino às aves confiscadas ou dispor
do excesso de exemplares reproduzidos em cativeiro.
Os projetos de
reintrodução devem ser submetidos e aprovados pelo IBAMA, que
necessariamente
deve ser
bem informado de todos os seus passos, acompanhando os sucessos e os
fracassos. Projetos que visam reintroduzir espécies em habitats fora
da sua área de ocorrência original não devem ser aprovados. Para que
este tipo de projeto tenha sucesso é necessário que exista um
programa de acompanhamento de longo prazo, onde se verifique
cuidadosamente os efeitos pós-reintrodução, sendo imprescindível que
existam recursos financeiros garantidos por vários anos, já que
estes projetos costumam ser bastante caros (Sanz & Grajal, 1998).
Existem algumas
condições nas quais a possibilidade de reintrodução pode ser
considerada:
a. extinção:
reintrodução de uma espécie em uma localidade onde houve
desaparecimento da mesma. Neste caso a área de ocorrência atual é
ampliada, aumentando a chance de sobrevivência desta espécie e de
outras cujo ciclo pode ser dependente;
b. em
populações naturais depauperadas, com a finalidade de aumentar sua
densidade, variabilidade genética e corrigir eventuais distorções
casuais de proporção sexual;.
c.
em casos excepcionais quando o hábitat remanescente no local de
ocorrência não oferece as condições necessárias para a manutenção da
espécie, e existem outros locais que apresentam potencial (área,
composição e condições climáticas, etc.) para a sua manutenção e que
podem ser também considerados, desde que situados dentro do
perímetro da sua distribuição histórica.
Um projeto de
reintrodução é um sucesso quando resulta numa população
auto-sustentável.
Esta possibilidade é
maior quando, entre outros fatores, o número de fundadores é grande
e a taxa de crescimento é alta, o hábitat é protegido e possui os
refúgios característicos para cada espécie. Espécies que possuem
hábitos herbívoros e com alta diversidade genética também possuem
maior chance de se estabelecer. Outro fator relevante é o
treinamento adequado de filhotes nascidos em cativeiro.
É importante
averiguar também se os fatores que concorreram para a extinção local
foram controlados, verificando, por exemplo, se o local escolhido
foi recuperado e adequadamente protegido, se os predadores exóticos
foram eliminados e se houve modificação da atitude da população
humana residente na área. Esta população ainda deverá ser,
obrigatoriamente, muito bem informada sobre todo o processo de
reintrodução, e, de preferência, engajada no projeto.
Os responsáveis
pelo projeto devem assegurar-se de que as aves reintroduzidas
apresentam as melhores condições possíveis para poderem sobreviver
no local escolhido e que as mesmas apresentam as condições
potenciais de adaptação a eventuais modificações no ambiente. Para
tanto as aves devem apresentar-se saudáveis, não portando nenhum
microorganismo patogênico e devem estar aptas a procurar
naturalmente alimentos e abrigos característicos de cada espécie,
apresentando o máximo de variabilidade genética possível, através da
utilização de todos os casais de fundadores disponíveis e da
reintrodução de número igual de filhotes por casal. A presença de um
veterinário especializado em animais silvestres é fundamental
neste.processo, e a sua opinião deve ser observada, mesmo incorrendo
em atrasos no cronograma do projeto.
Além disso, antes de
iniciar o projeto, deve-se conhecer muito bem os hábitos da espécie
que se deseja reintroduzir, através de intensa pesquisa sobre a
história natural e as interações com outras espécies. Estes dados
podem ser obtidos através de consultas à museus, literatura
especializada e, principalmente, em sérios trabalhos de campo. A
identificação do hábitat adequado para a reintrodução exige
informações ecológicas detalhadas sobre a história natural e o
tamanho mínimo da área que cada indivíduo ocupa. De preferência as
pesquisas prévias de campo devem ser realizadas em unidades de
conservação (UC’s), obviamente naquelas onde a espécie escolhida
para a reintrodução ainda ocorra e onde pode ser encontrado um
ambiente mais próximo do original. As pesquisas em UC’s são também
importantes porque as possibilidades de ocorrências de problemas que
inviabilizem as pesquisas (desmatamento ou caça) são menores.
A espécie
reintroduzida deverá ser monitorada e as conseqüências desta
reintrodução devem ser periódica e criticamente avaliadas, com
registros cuidadosos sobre reprodução, aumentos ou diminuições da
população reintroduzida e os efeitos da reintrodução sobre o
ecossistema. Os resultados, positivos ou não, relativos a cada um
dos eventos da reintrodução deverão ser tornados públicos através de
publicação em periódicos científicos reconhecidos, para permitir um
aprimoramento dos nossos conhecimentos.
O sucesso dos
programas de reintrodução tem sido maior quando as aves têm a sua
origem na natureza (processo conhecido como translocação; Griffith
et al.,
1989) do que nos casos em que nasceram, foram criados ou tiveram
alguma passagem pelo cativeiro. A diferença tem sido atribuída a
deficiência comportamental destas últimas, contudo, parte deste
insucesso pode ser também devido à menor adaptabilidade genética e
principalmente às doenças adquiridas em cativeiro.
Uma das formas de
reintrodução que tem se revelado promissora é a reintrodução de
ovos, ou mesmo filhotes, em ninhos encontrados na natureza,.dando a
oportunidade de aprendizagem com os pais adotivos e recebendo a
proteção destes. Para espécies ameaçadas a oportunidade de se
realizar tal programa é muitas vezes prejudicada pela falta de
casais adotivos, que deverão ensinar aos filhotes o comportamento
típico de cada espécie. A adoção por parte de espécies próximas é
possível, mas é pertinente lembrar que algumas características
importantes poderão ser perdidas, como a correta escolha do parceiro
para reprodução. A experiência acumulada neste sentido é ainda
escassa.
No Brasil, as
solturas (muitas vezes chamadas de “reintroduções”) de aves têm sido
realizadas tanto por indivíduos quanto por órgãos públicos ou ONGs.
Os resultados a médio ou longo prazo raramente têm sido
documentados. Dos poucos exemplos brasileiros melhor documentados
podemos citar três espécies de psitacídeos introduzidas no município
do Rio de Janeiro (Sick, 1997):
Diopsittaca nobilis
e
Brotogeris chiriri,
cujas populações se estabilizaram após a introdução (Pacheco 1994) e
Pyrrhura
cruentata,
introduzida no Parque Nacional da Tijuca em 1969-1970, cuja
população não se estabeleceu (Pacheco, 1988).
Entretanto, fora do
Brasil, existem muitos exemplos documentados de reintrodução que
resultaram em sucesso e outros com resultados modestos ou
mal-sucedidos. O falcão peregrino
(Falco peregrinus;
Barclay & Cade, 1983) e o condor da Califórnia
(Gymnogyps
californianus;
Toone & Wallace, 1994) estão entre os exemplos mais citados, uma vez
que estas aves estavam à beira da extinção. Um intenso programa de
recuperação, de longo prazo, foi desenvolvido e obteve tal êxito que
hoje o falcão peregrino não consta mais entre as espécies ameaçadas
(Burnham, 2000).
Outros bons
exemplos são o de
Falco punctatus,
nas Ilhas
Mauritius (Jones
et al.,
1995) e do papagaio das Ilhas Marguerita
(Amazona barbadensis,
Sanz & Grajal, 1998). Como exemplos de resultados um pouco mais
modestos podemos citar o ganso nene
(Branta
sandvicensis,
Black & Banko,
1994), no Havaí, o papagaio de Porto Rico,
(Amazona vittata)
em Porto Rico (Wiley
et al.,
1992) e o kakapo
(Strigops habroptilus)
na Nova Zelândia (Wiley
et al.,
1992); no.entanto a tentativa de reintrodução do estorninho de Bali
(Leucopsar
rothschildi)
na Indonésia, resultou em fracasso (van Balen & Esepak, 1994).
Até o presente
momento existem poucos exemplos de reintrodução bem sucedida no
Brasil. Diversos programas estão em curso, porém seus resultados
ainda não estão disponíveis. Entre eles, podemos citar a
reintrodução do mutum do sudeste
(Crax blumenbachii),
realizada pela Fundação CRAX (Azeredo, 1996), a maracanã
(Propyhurra maracana),
realizada pelo Comitê de Recuperação da Ararinha-Azul e a de duas
espécies de cracídeos
(Penelope
superciliaris
e
P. obscura),
realizada pela CESP, em Paraibuna, após reflorestamento da área
devastada para construção de uma usina hidroelétrica. Os dados de
DNA relativos ao grupo em cativeiro da CESP e das aves recapturadas
na região da reintrodução sugerem que a população que se estabeleceu
no local é derivada das aves introduzidas (Pereira e Wajntal, 1999).
Contudo, faltam informações relativas a densidade populacional,
capacidade de sustentação da área, número de casais que estão se
reproduzindo e outros parâmetros que poderiam ser extremamente
importantes para orientação de outros programas de reintrodução de
cracídeos.
Indivíduos de
espécies ameaçadas de extinção são preciosos e não devem servir de
“pilotos de teste” em programas de reintrodução que não cumpram os
requisitos sugeridos acima. Estes exemplares podem ser mantidos e
multiplicados em cativeiro enquanto as pesquisas sobre biologia e a
escolha dos habitats adequados ainda estão em curso. Os mesmos só
devem ser libertados após todas as condições para a reintrodução
terem sido observadas.
As estimativas sobre
a taxa anual de extinções de espécies resultantes das ações
antrópicas mostram que estamos vivenciando um momento não muito
diferente das grandes catástrofes que resultaram no desaparecimento
da quase totalidade das espécies como as que ocorreram na transição
do Período Cretáceo para o Terciário. Não sabemos ainda até que
ponto é possível destruir sem que a interação entre os seres vivos
seja irreversivelmente quebrada. É muito importante que se criem
mais reservas, e que as mesmas.sejam efetivamente protegidas e, de
preferência interligadas com outras áreas preservadas.
Não basta apenas
interromper o acelerado ritmo de devastação atual, é preciso reunir
esforços para tentar reverter o que de outra forma será
irreversível. É preciso plantar, proteger ecossistemas, criar
corredores e, cada vez mais, reintroduzir espécies.
Para tanto,
precisamos conhecer e saber avaliar as conseqüências de nossos atos
presentes e futuros para poder estimar os riscos e benefícios
decorrentes. Entender melhor as espécies, sua biologia, sua
distribuição presente e passada, sua história. Um dos problemas que
surgem em relação às solturas não monitoradas é que elas não trazem
nenhum conhecimento sobre as conseqüências causadas e impedem o
conhecimento da verdadeira história da espécie e do ecossistema que
ela ocupa. Portanto dificultam a reconstrução e podem ser um fator
importante para acelerar o processo de extinções em cascata.
O nosso dever deve
ser o cuidar para conservar as aves livres na natureza, reconstruir
os hábitats degradados e reintroduzir de forma responsável,
impedindo atos que possam ameaçar os ecossistemas existentes, como
as solturas na forma em que são realizadas atualmente.
Publicado no
ATUALIDADES ORNITOLÓGICAS
N. 98 Nov/Dez. 2000
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solution from conservation biology:
165-200.
1 –
ANITA WANJTAL:
Departamento de Biologia, Instituto de Biociências da
Universidade de São
Paulo. Caixa Postal 11 461, CEP 05508 – 090, São
Paulo, SP. e-mail:
aniwa@usp.br
2 –
LUÍS FÁBIO SILVEIRA:
Departamento de Zoologia, Instituto de Biociências
da Universidade de
São Paulo. Caixa Postal 11 461, CEP 05433 – 970, São
Paulo, SP.
e-mail: lfsilveira@uol.com.br.
Bolsista FAPESP (processo 99/12326-
9).
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