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Ecologia
MATA ATLÂNTICA:
IMPOSSÍVEL DE SER IMITADA PELO HOMEM
Gentilmente cedido por
Germano Woehl Jr.
para o site Birdmania
Germano
Woehl Jr. é pesquisador titular e, como voluntário, coordenador
de Projetos do Instituto Rã-bugio p/ Conservação da
Biodiversidade
www.ra-bugio.org.br
Mesmo diante de um sonoro NÃO da ciência e de exemplos bastante
convincentes, contrários à idéia, tem-se difundido que o homem
pode reproduzir ou restaurar a integridade de um ecossistema
tropical tão complexo como é a mata Atlântica,através do plantio de algumas mudinhas de árvores. A idéia
beira a ficção científica. É claro que não podemos deixar de
valorizar o esforço das pessoas, que na mais pura das boas intenções,
querem ajudar a todo o custo na reparação do dano causado e,
como forma de satisfação pessoal, observar os resultados a curto
prazo. Contudo, na inocente forma de "ajudar" a natureza
pode-se, em vez disso, prejudicá-la, contaminando os ecossistemas
com a introdução de espécies de outros lugares uma mesma espécie
de árvore, por exemplo, pode apresentar variações genéticas em
suas populações de diferentes regiões separadas, às vezes, por
uma distância não muito maior do que 100 km.
Então, o que devemos fazer para salvar a mata Atlântica? Devemos
ficar de braços cruzados, já que temos que resistir à tentação
de plantar algumas mudinhas de árvores porque estamos
atrapalhando? A resposta para esta segunda questão é quase
afirmativa. Mas, antes de prosseguir, devemos indagar o seguinte:
quando se diz "proteger a mata Atlântica", afinal de
contas, queremos proteger a mata Atlântica de quem? Quem ameaça
a mata Atlântica? São os ET's? Não, evidentemente. É o homem
que tem levado a Mata Atlântica a esta situação de quase extermínio.
Então, a mata Atlântica deve ser protegida de nós mesmos.
Não
mexer mais nas áreas remanescentes é uma das medidas mais
positivas em prol de sua possível recuperação. Embora a mata
Atlântica esteja arrasada, restando em torno de 17% em Santa
Catarina (e 7% no País), sendo menos de 1% de florestas intactas
e o restante de florestas secundárias, ou seja, que já foram
destruídas e naturalmente estão se recuperando, ela tem uma
extraordinária força de auto- regeneração, desde que, é
claro, ainda ocorra uma área bem preservada nas proximidades com
toda sua integridade em termos fauna e flora. Obviamente, esta
condição está difícil de ser satisfeita em muitos lugares,
mas, se a destruição for detida, ela ainda poderá ser
satisfeita em muitas regiões de Santa Catarina, como no norte do
Estado, na serra do Mar e adjacências.
E que força é essa capaz
de replicar as florestas
remanescentes? São os bichos, insetos, os ventos, os
micro-organismos decompositores etc., ou seja, tudo o que faz
parte da própria m.Atlântica. Só para dar um exemplo da força
da natureza, um único pássaro é capaz de em um ano espalhar 100
mil sementes de árvores como o palmito e a canela; e se
considerarmos sementes minúsculas como das figueiras e embaúbas
esse número anual chega aos milhões. Ou seja, um único pássaro,
ou um morcego, é capaz de produzir mais mudas de árvores nativas
do que muitos viveiros. Além disso, os animais não discriminam
outras plantas, como os cipós, por exemplo, que na floresta atlântica
são tão importantes quanto as árvores: há cipós cujos frutos são apreciados por uma parcela significativa da
fauna, mais até do que muitas árvores consideradas bagueiras
(baga significam fruto muito apreciado pela fauna). Sem falar das
plantas aéreas que vivem fixadas nas árvores, como as bromélias,
orquídeas,cactos-de-árvore (ripsalis) etc., cada uma com sua função
ecológica tão importante quanto as árvores que as suportam.
Em toda a extensão da mata Atlântica no Brasil, temos mais de 20
mil espécies de plantas e 2160 espécies só de animais
vertebrados (mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes). Espécies
de animais invertebrados, como os insetos, por exemplo, temos aos
milhares, nas mais bizarras formas. E todos estes organismos vivem
de forma interdependentes. Portanto, só o plantio das espécies
de árvores - a mata atlântica de Santa Catarina tem 714 espécies
- não resolve o problema. Cabe aqui as palavras de um dos mais
renomados botânicos brasileiros, o Prof. Dr. Ademir Reis (UFSC):
"precisamos nos desvincular dessa idéia de sermos pequenos
deuses, transformando a natureza à nossa imagem e semelhança";
e da Prof.a Dra. Ana Claudia Araújo (Univali), nono passado, em artigo publicado em jornais, "plantar algumas
espécies, mesmo que nativas, pode nos satisfazer, satisfazer
nosso ego, nossa visão, mas de forma alguma restaura o bem que
foi perdido". Um exemplo clássico de "restauração"
de floresta é o caso da Floresta da Tijuca, no Parque Nacional da
Floresta da Tijuca, que era ocupada com cafezais e cuja
necessidade de "recuperação" surgiu na época do
Brasil imperial, por volta de 1811, para proteger os mananciais.
De 1862
a 1885 foram plantadas mais de 100 mil mudas. Foram gastos mais
recursos do tesouro com o plantio de árvores do que com as
desapropriações das áreas. Estudos posteriores revelaram que o
plantio de árvores não demonstrou ter muita relevância. Aliás,
hoje a Floresta da Tijuca está cheio de árvores exóticas devido
a este plantio; até o Dr. Blumenau enviou sementes de SC para lá,
segundo documentos históricos. Os fatores determinantes para sua
"recuperação" foram os remanescentes de mata atlântica
e a proteção do
governo por meio de desapropriações.
Em 1966, no livro
"Floresta da Tijuca", publicado pelo Centro de Conservação
da Natureza, RJ, uma das ONGs ambientalistas pioneiras no Brasil, é mencionado o seguinte: "Nem 100 mil plantas
multiplicadas algumas vezes repovoariam a Floresta (da Tijuca) se
não houvesse um regime especial de proteção". Na
região norte de Santa Catarina, a região do alto da serra Dona
Francisca já foi desmatada há muitos anos e hoje está em
adiantado estado de regeneração; os morros de Jaraguá do Sul e
Guaramirim também já foram desmatados e hoje estão novamente
cobertos de floresta nativa, já oferecendo condições para um número
significativo de espécies prosperarem. Neste dois casos, não consta que alguém, em épocas
remotas, seguiu o exemplo da Floresta da Tijuca. E, se essas áreas
não sofrerem mais intervenções humanas, sobretudo nas partes
mais preservadas, dentro de mais algumas décadas começarão a
assumir, paulatinamente, as características de ecossistemas
intactos, e, quem sabe, voltarão a cumprir plenamente sua função
ecológica.
Evidentemente, devemos usar e abusar do plantio de árvores
nativas da m. Atlântica, com propósitos comerciais, ornamentais
etc., desde que não sejam usadas as poucas
áreas de floresta em regeneração. Para efetivamente salvarmos a
mata Atlântica, todo o nosso empenho deve ser no sentido de
assegurarmos a preservação do que restou
deste exuberante ecossistema, um dos mais importantes do mundo em
termos de diversidade de vida, de acordo com dados científicos. O
que restou é uma área tão pequena cuja exploração não vai
resolver os problemas econômicos de ninguém. Se a destruição
de 93% não acabou com a miséria, a destruição dos 7% restantes
(que é a situação atual da m.atlântica no País), com certeza,
também não. Muito pelo contrário, agravará ainda mais a miséria
na zona rural e inviabilizará o desenvolvimento de nossas
cidades, uma vez que as florestas garantem a produção de água,
em abundância e qualidade.
Jornal
A Noticia, SC, 27 de maio de 2004 - Edição Estadual
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