Se a fábrica hollywoodiana de ilusões já
utilizou a ferramenta da ficção para entrevistar o personagem de
um vampiro interpretado por Tom Cruise, não há razão que impeça
um ligeiro papinho com a vítima mais previsível do show business
mundial: o touro. Ele mesmo. Aquele que em sentido contrário ao
do vampiro, vai ofertar seu sangue para a estatística sinistra
do matador e sua carne impregnada de toxinas de fúria para
alimentar sei lá quem, mas, sem dúvida seres humanos que serão
as vítimas futuras de anos de ingestão de proteína animal.
Somos o que comemos e a justiça antagônica à
crueldade virá com o tempo na arena representada por um Centro
Cirúrgico para alguns e outros terão o seu sofrimento abreviado
por um enfarte fulminante, mas, para manter a fidelidade ao
título, vamos nos transportar para os instantes que antecedem o
ingresso do nosso entrevistado na arena, quando os acordes da
banda taurina impregnam de alegria o ambiente com um Paso Doble,
mas, para a orelha do entrevistado (aquela que será cortada e
jogada como um troféu ao público) soa como a marcha fúnebre
diante da morte inevitável. A entrevista exclusiva é a grande
missão humanitária.
A primeira pergunta surge com uma lógica
avassaladora, porém necessária:
Como você se sente diante da morte anunciada
nos próximos minutos ?
Resposta: Triste. Não somente por mim, mas
pela cultura de um país que doa ao mundo escritores como
Cervantes, tenores como Domingo, Carreras e atores como Banderas
e que necessita deste espetáculo deprimente e sanguinário para
ilustrar cartazes turísticos convidativos para que venham
assistir a minha execução. A Espanha e países hispânicos se
transformam em grandes exportadores de entretenimento atroz com
o intercâmbio de matadores para exibição de seus dotes de
maestria no uso da capa e espada.
A segunda pergunta utiliza um “gancho” da
primeira resposta do entrevistado:
Já que o senhor mencionou a palavra
“cultura”, não acha que é tarde demais para extinguir um
espetáculo culturalmente consagrado através dos séculos ?
Resposta: Nunca será tarde para eliminar esse
fardo pesadíssimo que é sempre jogado nas costas largas da
cultura, pois em nome dela se busca a justificativa de comer
outros irmãos irracionais como, por exemplo, cães no Extremo
Oriente e camelos no Oriente Médio. Enfim, o ato de evitar o
sofrimento cruel de outro ser animado jamais será tardio e sim
redentor.
A terceira e derradeira pergunta é
importantíssima, pois procura saber da vítima, o que acha do
algoz :
O que significa o homem na sua existência ?
Resposta: Um ser digno de piedade. Sim essa
mesma piedade cuja ausência ditará minha morte nos próximos
minutos. Um ser vítima da insensibilidade alimentada pelo sangue
vertido em muitas guerras e que, com nobres exceções, prima pela
crueldade com meus outros irmãos e, convenientemente, ignora o
exemplo dado pelo Divino Mestre da Galiléia ao abominar a
alimentação com vísceras animais e a crueldade diante de seres
indefesos como entretenimento. Seus seguidores foram vítimas
dessa mesma crueldade no Coliseu anos depois quando foram
considerados uma ameaça ao Império Romano.
Mesmo caracterizada pelo realismo terrível
contido nas respostas, a breve entrevista foi encerrada com o
toque do trompete e o rufar dos tambores anunciando que o
“espetáculo” seria iniciado e a crueldade seguiria o seu curso
para horror dos sensíveis ausentes e deleite da massa
entorpecida pela brutalidade diante de seus olhos. Esse torpor
os impede de enxergar que música, cores, ritual de entrada e
gestos teatrais do matador jamais darão dignidade a essa chacina
folclórica.
Argumentos hispânicos no sentido de que a
“Farra do Boi” por possuir os mesmos requintes de crueldade da
tourada, deveria ser uma preocupação prioritária de brasileiros,
soam ridículos diante do fato de que adeptos da causa animal não
se deixam dominar por sentimentos arrebatadores como o
nacionalismo. São pessoas cosmopolitas que abominam o sofrimento
de qualquer ser vivo em qualquer parte do mundo e relegam para
segundo plano a origem do seu passaporte. Basta registrar que o
autor deste texto tem a cidadania espanhola e toureiros no seu
círculo familiar.
A crueldade somente é incorporada à cultura
de um país porque a omissão dos adultos em termos de bons
exemplos permite que crianças absorvam essa herança cultural
cruel. Em algumas províncias do Sul da Espanha existe a
brincadeira infantil de simular a tourada entre dois
participantes, quando um deles segurando um par de chifres
investe contra o outro para testar sua habilidade de se
esquivar. Embora seja tragicômico, é válido o comentário de que
na Espanha, somente nessa situação um ser humano se coloca no
lugar do touro.

DETALHES DO
RITUAL SANGRENTO
Toda tourada se realiza sob o olhar atento de
um juiz ou “presidente”, às vezes o governador da província,
auxiliado por um veterinário e por um especialista, em geral um
toureiro aposentado.
Numa corrida de touros completa apresentam-se
três matadores, que se alternam enfrentando seis touros de briga
criados na mesma fazenda. Cada matador tem seus próprios
assistentes: os banderilleros com pequenas lanças, os
picadores montados a cavalo e seus assistentes, os monosabios
e, por último, os areneros cujo trabalho é deixar a arena
limpa. Juntos eles formam a equipe do matador, sua cuadrilla.
Antes do início da tourada, as tres
cuadrillas, luxuosamente vestidas, percorrem a arena ao som
do paso doble e saúdam o juiz e a multidão.
Cada combate é dividido em três partes, ou
tercios, precedidas por uma espécie de introdução. Como
sinal para o início de cada fase, o juiz acena com um lenço
branco, enquanto soa a banda taurina com destaque para o
clarim e o rufar do tambor.
Quando o touro é libertado e corre para a
arena, são assistentes com capas, os peones que o
enfrentam, permitindo que o toureiro avalie suas
características. Em seguida, o matador salta na arena e faz uma
série de passes com a capa.
O primeiro entre os principais atos é
realizado por dois picadores, que tem por função ferir e
enfraquecer o touro com pequenas lanças pontudas. Na segunda
fase, três pares de lanças decoradas com fitas coloridas, as
banderillas, são cravadas no quarto dianteiro do animal por
velozes banderilleros, ou, às vezes pelo próprio matador.
Por fim, chega o momento do clímax: o
tercio de muerte, em que o touro será morto. O matador ergue
a espada e a pequena capa escarlate e dirige-se ao camarote do
juiz para pedir permissão para matar o touro. A habilidade
demonstrada nos passes provam seu domínio sobre o touro e
determinam sua reputação como toureiro. Ele dispõe de apenas 15
minutos para demonstrar sua capacidade de permanecer próximo ao
touro enfurecido e apenas 5 minutos para realizar sua parte,
considerada a mais difícil do ritual quando, se tudo correr como
previsto, o matador se coloca entre os chifres do touro e o mata
com um golpe preciso de espada.
As touradas raramente terminam sem algum
incidente. Se o golpe de espada do matador não atinge um dos
órgãos vitais e há a possibilidade do touro sangrar lenta e
dolorosamente até a morte, esse sofrimento precisa ser evitado
por meio de uma adaga especial de cabo longo que o matador
enterra na cabeça do touro.
Quando morre, o animal é arrastado para fora
da arena por uma parelha de mulas correndo a todo galope ao som
do paso doble. Se foi muito corajoso, ele tem direito a
uma última volta pela arena. O juiz em seguida, recompensa o
matador por sua bravura, dando-lhe uma ou duas orelhas do animal
e, em casos especiais, também o rabo.
Omar Manzanares
Assessoria de Imprensa para o Mundo
Animal (Junho/2007)
